Cultura de Greve

Verdade histórica e verossimilhança

 

Com o prof.º  João Adolfo Hansen

Hoje, às 19 horas, no CO (USP)

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1 Response to Cultura de Greve

  1. eu says:

    O mais interessante em todas as manifestações da mídia a respeito dos movimentos de greve é o modo como ela abafa as razões que ocasionaram os mesmos. Como está se tornando habitual, a mídia sempre apresenta os movimentos de greve como prejudiciais à população, separando, com uma nitidez fictícia, os serviços públicos do povo, esquecendo-se de que o servidor público é um cidadão e, portanto, integrante da população. Mas é precisamente em razão do caráter popular do serviço público – pois é o povo servindo a si mesmo – que a mídia arvora-se no direito de sempre criticar as manifestações e os movimentos contrários ao governo de seu agrado. Não se ouve a mídia dizer que a corrupção prejudica o país, ou que os parlamentares corruptos lesam o povo: os juízos acerca da corrupção operam mais como argumentos para criar um estado de pânico na sociedade do que como pensamentos capazes de orientar a ação pessoal no sentido de um futuro promissor. A mídia não forma o sujeito: ela o transforma numa marionete. Faz muito tempo que não vemos os jornais discutirem seriamente as raízes da corrupção, a desigualdade social ou os perigos do elitismo e da demagogia para a cultura política brasileira. O que temos é sempre um enxame descontrolado de acusações e de delações midiáticas, sempre em um estilo de discurso que apela mais para as paixões do que para a reflexão e a tessitura de um juízo prudente. A mídia, quando lhe convém, coloca o povo contra tudo e todos: incita a população ora ao ódio, ora ao respeito pelas instituições públicas; critica a ausência de movimentos institucionais em nome de reformas políticas, mas repreende certa sociedade civil, quando é esta quem age; aprova linchamentos de criminosos vulgares; abafa chacinas de gente pobre, mas escandaliza aquilo que acontece de ínfimo na vida das celebridades; despreza e amordaça os movimentos sociais, mas celebra a privatização do patrimônio público; entrona analfabetos que lhe ofereçam favores e lucro, mas aniquila a fama de intelectuais que têm idéias diferentes para um Brasil melhor. Em suma, a mídia opera, tanto com argumentos elitistas como com máximas demagógicas, procurando persuadir de que a sua opinião é a melhor, porque apresentada de modo imediato, irreflexivo e sem discussão conceitual alguma. Apoiada na demagogia da facilidade, dessa última fazendo a propaganda, a mídia se mostra como um poder alternativo, como o poder institucional privado que, apoiando-se na derrubada do Estado Democrático de Direito, apresenta-se como o último e verdadeiro profeta da verdade.

    ***
    O caderno Aliás do Estadão, edição de 17.06.07, é a gota d´água que faltava para entornar o copo da paciência dos universitários paulistanos sérios. É insuportável a hipocrisia com a qual a mídia se reveste. Se o Estadão tem a missão de questionar os poderosos, nosso dever é questionar a linguagem midiática e contradizê-la quando ela se mostra dogmática e imparcial.

    Por pretender dar uma lição de autonomia, emprega um quadro de Rembrandt para apresentar as autoridades institucionais responsáveis pela demonstração de incompetência na administração do bem público educacional superior. Lição indecorosa de autonomia, pois que eu saiba não cabe à mídia subministrar lições de gestão universitária: quando muito a mídia deveria comunicar imparcialmente os eventos que ocorrem na Cidade, sem deixar de prestar atenção nem na periferia nem no centro. Ora, é claro que o Estadão tem um caderno especial chamado Metrópole, o qual trata, é óbvio, da periferia de São Paulo e da violência que nela grassa diariamente e sem nenhum controle por parte das autoridades e das instituições defendias calorosamente pelo Estadão. Basta folhear as páginas para ver quantas linhas são dedicadas à periferia! Os olhos deste jornal, como não poderia deixar de ser, estão voltados para a zona oeste de Sampa, mais particularmente para uma das instituições fundamentais para a formação da elite dirigente brasileira: sim, o Estadão está vidrado na USP, nesta mulher madura que significa muito para a elite econômica e cultural não só desta Cidade, mas deste país. É preciso compreender, de uma vez por todas a função da Universidade em Sampa: ela é simplesmente o centro de formação da elite dirigente ou daqueles que pretendem ter acesso a esse grupo comandante; a Universidade, portanto, como meio, e não como fim — a USP como escada, trampolim. É por esta razão que ela importa para tantos partidos e instituições públicas e privadas: porque ela é o horizonte a ser alcançado pelas demais instituições de ensino e, como Estrela-do-Norte, deve ser firme e constante.

    Cidadãos e cidadãs, quando a reitora enfim ocupar o gabinete, tudo voltará a ser como antes: todos seremos felizes, e nossas vidas universitárias continuarão de vento em popa, pois nada terá sido alterado na USP, nem o seu elitismo nem a autonomia da classe dominante que nela se forma. Assim que a reitora sentar-se novamente em seu gabinete, poderemos ter a certeza de que a USP ainda será como em nossos sonhos: uma Universidade para poucos, uma Universidade de líderes, de criaturas que, por seus méritos individuais, são dignos de figurarem à frente da sociedade, como seus verdadeiros e legítimos tutores. Médicos, advogados, engenheiros, jornalistas, biólogos, farmacêuticos, químicos, veterinários, arquitetos, enfim, toda essa gama de profissionais liberais que merecem alçar aos maiores cargos de nossa Cidade e comandar as instituições privadas e públicas rumo ao horizonte maior de Ordem e Progresso, a Utopia. As demais profissões serão suas subalternas, de devem ou atuar como um baú cultural ou como foco de insurgentes, ou como um apêndice de vagabundos mesmo. Só que, eu me recordo, FOI NA FACULDADE DE MEDICINA DA USP QUE ESTUDANTES ASSASSINARAM CRUELMENTE UM BIXO; E FOI O CONTRO ACADÊMICO DE DIREITO, XI DE AGOSTO, QUE PUBLICOU FRASES CONTRA OS NEGROS NO BRASIL. Sim, meus caros, essas faculdades tão dignas de proteção institucional são faculdades que abrigam ASSASSINOS e NAZISTAS (FM-USP e FD-USP, respectivamente). Se a mídia fosse imparcial, certamente ela investigaria a fundo o que rola nos corredores dessas instituições de sua predileção. Ninguém a censuraria, exceto sua Consciência Crítica.

    Ainda, cidadãos e cidadãs, quando os alunos enfim voltarem às salas de aula, tudo voltará a ser como antes: o professor Gianotti continuará a ofender os estudantes e a protestar com toda a veemência contra a “burrice” dos alunos de escola pública. Eu só gostaria de pedir que o emérito catedrático dissesse isso em uma escola estadual, sim, daquelas bem devassadas, apenas para ver se ele sairia ileso. Muito fácil criticar o movimento estudantil quando se é emérito, e quando a titulação não depende de aprovação da comunidade universitária. Mas não há nenhum problema: é tradição na Universidade baixar a cabeça para os grandes eméritos, para que, se concedida uma bolsa de estudos, estes possam facilitar a ascensão na Academia. Os estudantes pobres são pródigos na aceitação desse sistema: basta entrar na USP e aquela empáfia do mérito e da dignidade toma conta. É o contato salutar com a humildade e a institucionalidade das elites. Escrevo o que quero: não estou filiado a ninguém, e também não busco convencer de verdade alguma, pois não sei e nem quero saber o que passa por vossa cabeça vaidosa.

    Sim, irmãos e irmãs, quando enfim os líderes sindicais baixarem o volume do alto-falante, tudo voltará a ser como antes: os professores mandarão na burocracia, funcionários continuarão sem voz e fazendo de tudo para “deixar tudo como eles querem”. A própria Universidade reproduzirá o modelo autoritário da sociedade neoliberal, que não concebe a possibilidade de representação política via sindicato, porque aos trabalhadores incumbe a realização de um trabalho perfeito, e não a conscientização e a luta política por um mundo mais justo e menos desigual. Por meio de uma solução racional, de mandar abaixar o tom de voz, assim abafando a gritaria inerente aos momentos de crise (em que nenhuma autoridade comparece para dar explicações), terminaremos por exterminar, dentro da Universidade, local de criação, a força dos movimentos sindicais. A Universidade, livre de agitações e insurgências, voltará a ser um ambiente pacífico e racional, em que nenhuma outra voz, senão a dos burocratas e dos acadêmicos, será ouvida: pois na Universidade, não há democracia, dúvida, incerteza, barulho, crise, mas a razão unívoca e unilateral. Como Platão seria feliz na USP!

    Uma crise foi ocasionada pelos decretos do sumo gestor do Estado. Sim, essa crise não existia: a USP era normal, com suas tradições elitistas e sua dignidade do mérito. Os decretos não vieram para aniquilar esses hábitos: foram impostos como forma de entronizar medidas que transformariam a Universidade em uma escola técnica, sonho da elite econômica, ávida pela dominação tecnológica. A educação, se formadora, custa muito ao Estado: para aumentar quantitativamente o ensino básico, é preciso reduzir qualitativamente o ensino superior. E não há problema nisso, porque o público que freqüenta a USP é suficientemente abastado para continuar buscando educação formadora além dos muros do Butantã. E fora do Brasil, se querem saber a verdade. Porque mesmo nas faculdades menos gloriosas, o número de alunos possuidores de capital intelectual é muito elevado. Mas não perguntem ao Gianotti: para ele somos todos favelados! Adorno é mais sutil: os favelados são pessoas felizes. Isto porque não é ele que presencia a violência, real, dolorosa, cruel, perversa e sem reação estatal! Mas estou falando de dois senhores que concordam com os hábitos de nossa Cidade: “que cada um viva conforme o que lhe cabe viver”, essa é a sapiência desses doutos! Se cabe ao pobre tolerar todo tipo de violência e ter sua voz abafada, que ele a tenha, pois a cada um se dê o que merece!

    Não, meus irmãos e irmãs, não há estado de exceção na USP, porque nesta Cidade o exercício diário é o da convivência com o nefasto e o autoritário! A mídia realmente conseguiu transformar a crise na USP em uma calamidade pública: isso porque o doutor Serra, ao executar uma minuciosa cirurgia no corpo morto (!) da UNiversidade, recebeu como resposta um sonoro arrombar de portas da reitoria. Sim, meus caros, a mídia está realizando a pintura de um quadro: ela está retratando como o grande médico Serra (e Platão se queria um médico de almas), preleciona acerca das propriedades orgânicas desse corpo morto chamado UNiversidade, mas ele cometeu apenas um erro, senhores: o corpo está vivo! Serra, para palestrar aos seus colegas, apresenta as vísceras de um corpo vivo, diagnosticando as suas enfermidades e os seus pontos saudáveis. Os decretos apenas são o produto das reflexões serranas sobre o bom e o mau na Universidade: “isto, senhores, é o que deve ser tratado primeiro no caso de um mercado com tais exigências; e isto, senhores, é aquilo que deve ser extirpado do organismo universitário, caso o mercado não necessite dessa formação”. Todos devemos obedecer às prescrições do doutor Serra e aprender com suas lições de autonomia e de gestão universitária. Além de governador, é legislador, economista, e médico institucional. Ave, César Platônico!

    Enfim, senhores e senhoras, recordemos as palavras de Souza Martins, o conselheiro do Estadão e do Serra: “Pior é o que está por vir após a desocupação”. São palavras pesadas, próprias de um homem tirânico e terrível, que deve lamber os dedos após queimar alguém na FAPESP ou no CNPQ. São palavras que revelam personalidade despótica, privatista: é um anticristo institucional. Ele poderia dar as mãos para os nazistas. SÓ NÃO SEI AS RAZÕES QUE LEVARAM ESTE PROFESSOR A SILENCIAR DIANTE DO ASSASSINATO DE TSUNG-CHI HSUEH NA FACULDADE DE MEDICINA; E TAMBÉM NÃO SEI OS MOTIVOS DE SUA INÉRCIA DIANTE DOS PANFLETOS RACISTAS DO XI DE AGOSTO. Quanta parcialidade, senhor Souza Martins! Quanta mentira! Eu quero a prisão dos assassinos de Tsung-Chi Hsueh, eu quero que o caso seja investigado, pois a Medicina da USP é um antro de assassinos! Se a FM-USP, palácio de homicidas de elite, não merece a difamação e a calúnia perpétuas, também os estudantes participantes da ocupação não merecem nenhuma punição, pois se assassinos não são punidos, não há autoridade moral para punir membros de um movimento social!
    Ademais, recordo-me também de uma máxima moral que permeia a administração do ensino básico: “Nenhum aluno será expulso, a menos que alguém consiga comprovar que ele realmente matou um colega de sala.” Vivemos em um Estado Democrático de Direito, no qual os cidadãos podem ter a certeza de que não serão presos por homicídio se matarem alguém no ambiente escolar. A Faculdade de Medicina da USP segue esses preceitos fundamentais da escola pública brasileira, em conformidade com os princípios do acesso democrático ao ensino. Não há autoridade moral nem institucional para impedir que um cidadão nefasto freqüente a escola básica. Não sei o que leva certos catedráticos (não, este nome não caiu) a considerarem os alunos ocupantes como dignos de expulsão ou coisas do gênero. No ensino básico estadual não existe norma educacional que permita expulsar ou punir um aluno — seria uma ofensa ao princípio da isonomia que universitários sofressem punições tão severas, pois sequer assassinos e traficantes são expulsos da escola pública! O que falta para todos esses catedráticos brasileiros é o senso da realidade: vivem suas vidas nos livros e métodos europeus e americanos, e não conseguem enxergar um palmo diante do nariz empinado, corja de sanguessugas.
    Quando a Cidade encontra-se dominada pelos dois extremos da vida humana, pelos senhores institucionais do sentido das palavras e pelos mestres nefastos da violência e do extermínio, cabe aos cidadãos íntegros e honestos sanear a Cidade, recordando as razões que geram a vida social e mostrando como uma vida transparente e preocupada com o público pode levar a uma vida alegre e livre de ditadores arrogantes e homicidas impunes. Porque nem os institucionalistas, nem os assassinos, diferem no mal que causam à Cidade: uns destroem a democracia por impor dogmaticamente a concórdia, assim desenlaçando a dialética da axiologia social; outros a exterminam por aniquilar a carne sacra dos cidadãos, privando a república de sua matéria a mais nobre.

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