Professores visitam a ocupação na reitoria da USP

Como parte das atividades da Ocupação da Reitoria, os estudantes do movimento receberam professores para um bate-papo a respeito dos decretos de Serra e da própria ocupação.Maria Helena Capelato (chefe do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), ressaltou que não estava representando seu cargo político na Faculdade, mas sua opinião pessoal. Considerou a ocupação uma forma válida de movimento e a sintetização da pauta um avanço na organização dos estudantes.Zilda Iokoi (Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), demonstrou apoio à causa dos estudantes, mas salienta que o movimento precisa buscar novas formas de mobilização, e não utilizar a força para atingir seus objetivos. "Nós estamos aqui numa relação companheira, solidária, pra fazer discussão, crítica e apoio." "A minha geração não tem nada a ensinar a vocês. Nós erramos muito, fizemos muitas coisas indevidas, apanhamos muito, não conseguimos avançar na democratização deste país – nos pontos fundamentais, não mudou nada. Eu sempre digo aos alunos 'vocês têm que encontrar uma estratégia nova, diferente, capaz de dar uma surpresa ao outro'".Francisco Miraglia (vice-presidente da Associação dos Docentes da USP), disse: "Nunca a autonomia desta universidade foi atacada do jeito que está sendo atacada pelo governo Serra. Ele quer cortar a autonomia na raiz". Para Miraglia, a luta em defesa da autonomia e da democracia, que consta das pautas da ADUSP, é constitutiva de qualquer universidade, não apenas das públicas. "Se não tivermos este tipo de universidade e se não formos capazes de construí-la, não seremos capazes de contribuir para a emancipação da sociedade."Luiz Renato Martins (Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicação e Artes), defendeu que ocasiões concretas de luta unificada, como a desta ocupação, são fundamentais e exemplares: "A força mais viva da universidade, do ponto de vista político, está no movimento estudantil e de funcionários. Acho que vocês estão lutando pela sobrevivência da universidade, pela radicalização do projeto democrático da universidade – que não existe de fato, mas existe como projeto."Cesar Minto (Faculdade de Educação, presidente da Associação dos Docentes da USP), considerou as pautas dos estudantes coerentes. "Um exemplo é que a USP, com 70 anos, ainda não conseguiu garantir que os estudantes saiam depois do término do período noturno, por falta de transporte". Para ele, a iniciativa dos estudantes é a garantia de uma luta maior. "Estamos nos organizando para nos contrapor à gestão autoritária do governo Serra: o conjunto de medidas, os decretos, o projeto de lei de diretrizes orçamentárias – que propõe apenas 9,57 do ICMS para as universidades para 2008, valor que já sabemos há anos ser insuficiente. Alguém que começa sua gestão com o pé na porta não tem condição de continuar governando dessa forma".Henrique Carneiro (Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), – "O princípio central da democracia é o direito à rebelião, o direito à revolta; isso é o que constituiu todos os processos fundadores da democracia moderna". Neste sentido, ele argumenta que a ocupação da reitoria não apenas é legítima, como dá continuidade a uma prática histórica dos movimentos sociais no Brasil, "a de os setores públicos ocuparem os lugares que teoricamente são públicos". Para ele, o ato dos estudantes é a ocupação pública de um espaço público. "É o direito dos representados, quando o sistema representativo não os contempla, ocupar o espaço público de forma pacífica, organizada, se propondo a negociar."João Zanettic (Instituto de Física, vice-presidente da Associação dos Docentes da USP), disse: "Nós, da Adusp, temos circulado pela universidade falando sobre o Mapa da Destruição – este é o nome que nós demos ao elenco de decretos com que o Serra nos brindou desde o Reveillon." Ele ressaltou, entretanto, a pouca presença de professores na última assembléia da Adusp, o que reflete, em sua opinião, um "momento neurastênico no corpo. É um momento complexo que se vive no Brasil, uma democradura: formalmente democrático mas autoritário, em todas suas estâncias – do governo federal, passando pela reitoria até às salas de aula." Posicionou-se sobre o parecer do chefe de departamento da FFLCH, Gabriel Conh: "Há muito tempo não via coisa tão nojenta. (…) Portanto por toda a dificuldade que eu possa ter na qualidade de vice presidente da Adusp, vou tentar mobilizar e conscientizar os colegas docentes, apesar de ser uma realidade complicada." João Zanettic citou, além dos decretos, outros ataques frontais à universidade pública de qualidade. Entre eles os documentos fabricados no ministério da educação e o Prouni, motivos que insuflariam o corpo docente mas, segundo suas palavras: "Infelizmente não vemos nossos colegas se levantando, uma leitura simples esclarece os problemas. O movimento é super importante. Temos que saber caminhar de tal forma a tirar frutos positivos desta ação. Este é o cenário que temos que atravessar."João Adolfo Hansen (Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), lembra que invasões da USP vêem sendo feitas desde o tempo do governador [Franco] Montoro e do reitor Goldemberg. Desde então, "nós vemos um acúmulo de medidas que têm um sentido anti-democrático, privatista e absolutamente obscurantista. (…) Provavelmente, a ocupação da reitoria pode ser discutida em termos de uma legalidade, mas eu acredito que ela é absolutamente legítima. O projeto de vocês evidentemente não é só um projeto dos estudantes, mas representa o que há de melhor."Pablo Ortellado (Gestão de Políticas Públicas, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades), defendeu que os pontos que o movimento de ocupação colocou fazem parte da pauta histórica de professores, estudantes e funcionários que vislumbram outra universidade, "uma universidade que a gente nunca teve: uma universidade pública, devotada para os valores científicos e acadêmicos, emancipada do controle do Estado e da pressão do mercado."Ortellado reforçou que o movimento está maduro e tem legitimidade, reforçando os pressupostos da universidade pública.José Arbex Jr. (Vice-chefe do Departamento de Jornalismo da PUC-SP), trouxe o apoio do Departamento de Jornalismo da PUC-SP, salientou que, se a reitoria não condiciona as negociações à desocupação do prédio, "não é porque ela é democrática, sábia e sensível, mas porque ela sente a força, a legitimidade e a justiça deste movimento e sabe que não é fácil desmontá-lo com medidas repressivas; porque isso também diz respeito à situação política que esse país está revelando. (…) gostaria de lembrar que haverá sempre uma conversa daqueles que são contra tudo, que nasceram contra tudo e que vão ser insignificantes a vida inteira, que dizem que 'é um pequeno setor do movimento estudantil, é classe média radicalizada e blábláblá'. Mas eles não sabem que as mobilizações da USP no final da década de 70 foram muito importantes para a construção da esquerda brasileira, do PT e da CUT – sem querer culpar ninguém pelo que aconteceu (risos). Nós estamos fazendo um movimento que aponta para a transformação social do Brasil em união com a juventude trabalhadora, com as centrais sindicais e com todos aqueles que não concordam com o neoliberalismo." … (continua)

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